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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Médicos que atenderam mulher que morreu após alta no RJ são afastados


Técnica de enfermagem morreu 3 dias depois de passar mal.
Enfermeiro se apresentou como médico e disse que era psicológico.

Do G1 Rio

Foram afastados do trabalho os médicos Sebastião Bastos Soares Júnior e Juan Carlos Munoz Vilchez, que atenderam a técnica de enfermagem Elizangela Medeiros Gonçalves, de 35 anos. Ela morreu na segunda-feira (2), três dias após passar mal e buscar atendimento no Hospital Estadual Adão Pereira Nunes (HEAPN), em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde trabalhava. A família alega que houve negligência no atendimento e a própria Elizângela havia questionado a alta médica em um áudio enviado por Whatsapp (ouça abaixo).
O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) já abriu sindicância para apurar a conduta dos médicos e explicou que a sindicância é a fase de apuração que precede o processo ético-profissional. Em caso de condenação, as punições vão desde advertência confidencial até a cassação do exercício da medicina.
O conselho informou que vai chamar os médicos, ambos registrados no Cremerj, a direção do hospital, os parentes de Elizangela e funcionários para saber o que aconteceu. Uma cópia do prontuário também será solicitada.
“Se houve algum deslize, algum erro médico comprovado, vai ser aberto processo ético-profissional contra quem cometeu esse erro”, disse Pablo Vazquez, presidente do Cremerj.
Médico disse que ela 'estava de frescura'
Elizângela sentiu dores no peito e dificuldade para respirar na noite de 29 de outubro. O marido, Éder Gil Moreira, disse que chegou por volta das 5h30 do dia 30 no hospital, mas a mulher só foi atendida duas horas depois. Segundo Éder, o médico de plantão, identificado como Sebastião, teria alegado que ela “estava de frescura” e teria proibido que outros funcionários atendessem a paciente.


“Na quinta-feira, ela passou mal em casa, aí de madrugada levei para o hospital. Ela estava de folga. Quando chegamos lá, os recepcionistas foram ótimos. Quando o médico chegou, disse que ela estava de frescura, que ela estava tentando armar para pegar dias de atestado. Como uma pessoa de folga vai de madrugada procurar um atestado? O médico proibiu a equipe de colocar a mão nela, disse que quem botasse a mão nela ia para o livro e seria advertido pela coordenadora. Esperaram o plantão do médico virar para ela ser atendida. Eu cheguei 5h30 da manhã e ela só foi atendida 7h30 da manhã”, afirmou.
Foi negligência, falta de amor humano, falta de amor ao próximo, o médico que faz isso não está ali para salvar vidas, está ali pelo dinheiro"
marido de Elizângela, Éder Moreira
A família diz que o médico que assumiu o plantão, o peruano Juan Carlos, fez exames, passou remédios e a mandou para casa. Mas ela continuou se sentindo mal. Então, Elizângela foi levada para o Hospital Municipal Evandro Freire, na Ilha do Governador.

“Lá, chegou um cidadão que se apresentou como médico e falou para ela que era psicológico”, disse Éder.

Mas o médico, na verdade, é o enfermeiro Luciano Meirelles Silva, que examinou Elizângela e recomendou que ela fizesse o acompanhamento numa UPA perto de casa. Mas Elizângela acabou sofrendo uma parada cardíaca.
A família contou ao G1 que a técnica em enfermagem não conseguia andar, mesmo após ter sido liberada. Na segunda-feira (2), a ela foi levada para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) após passar mal novamente e morreu.
“A gente socorreu ela na UPA, ela teve um infarto e uma parada cardíaca. Tentaram reanimar, mas não adiantou nada. Já era tarde, não tinha muito o que fazer. Ela foi com a mãe e o pai porque eu estava no meio da Avenida Brasil, voltando do trabalho. O que tinha que ser feito, tinha que ser feito quando buscamos o primeiro atendimento. Ela dava a vida por aquele hospital, ela mesmo falava: ‘Eu cuido dos meus pacientes porque quero ver eles bem'. Agora, na hora dela, acontece isso. Foi negligência, falta de amor humano, falta de amor ao próximo, o médico que faz isso não está ali para salvar vidas, está ali pelo dinheiro”, disse o marido.
Certidão de óbito mostra causa da morte indeterminada (Foto: Diego Medeiros / Arquivo Pessoal)Certidão de óbito mostra causa da morte indeterminada (Foto: Diego Medeiros / Arquivo Pessoal)
A certidão de óbito da técnica em enfermagem diz que a causa da morte é "indeterminada, hipertensão arterial sistêmica".

O marido de Elizângela não se conforma com o que aconteceu e contou ainda que a mulher iria se formar em dois anos e estava empolgada para se tornar enfermeira.

“O sonho dela era terminar a faculdade, ia terminar em dois anos e estava animada. Tínhamos planos e acabou tudo. Tínhamos dois filhos e ela deixou duas sementes para mim”, lamentou Éder, que cogitou a possibilidade de levá-la ao Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, no Subúrbio do Rio, mas que depois achou melhor levá-la no hospital onde ela trabalhava.
A mãe de Elizângela, Luzia, disse que a filha comentava que o médico Sebastião ficava nervoso e reclamava quando tinha de ser acordado para atender pacientes. Segundo ela, ele só ficava dormindo.
O irmão de Elizângela, Diego, contou que acompanhou o martírio da irmã e que agora só espera que seja feita justiça e o médico Sebastião seja punido para que não faça com mais nenhum paciente o que fez com a técnica em enfermagem.
'Não quero morrer', revela áudio
Elizângela mandou para seus amigos de profissão um áudio relatando os momentos em que ela ficou no hospital onde trabalhava. Ela reclamava do atendimento recebido e dizia que não queria morrer.

"Quando eu cheguei pela manhã, o doutor Sebastião me fez um Diazepam e disse que eu estava com uma crise nervosa e eu estava dispneica, cansada, pálida, sem conseguir falar. Eu era para ter ido direto para a vermelha e ele botou DZP, um negócio assim. Foi como se eu não tivesse nada, fosse frescura. Não deixou ninguém me botar no O² e disse que se alguém me botar no O² que ele ia relatar no livro e a equipe toda ia levar ao superior. Renato da vermelha enfermeira foi lá e ele não deixou me tirar dali. Eu fiquei até as 7h esperando alguém para me colocar no oxigênio e eu vou te falar que foi Deus que me deu força para eu suportar porque mais um pouquinho eu não ia aguentar nesse intervalo esperando outro médico. Eu poderia morrer de falta de ar, de oxigênio, porque até para ir no raio X eu tive que ir de ‘bola de oxigênio’ e para ir no banheiro eu já não estou conseguindo. E para ficar internada para esses médicos fazerem pouco caso, me tratar como um lixo e eu trato os pacientes como prioridade. Eu não quero morrer. Para morrer aí, eu prefiro morrer em casa", disse Elizângela no áudio.
Elizângela morreu três dias após receber alta médica (Foto: Reprodução / Internet)Elizângela morreu três dias após receber alta médica (Foto: Reprodução/Internet)
Hospital apura episódio
A direção do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes informou que Elizângela deu entrada na unidade às 5h47 do dia 30, com queixa de dores no peito e falta de ar, sendo imediatamente acolhida e atendida. Já às 5h55, ela foi medicada, após exames clínicos, em que foram constatadas pressão arterial levemente alta e taquicardia discreta. Em seguida, solicitaram exames de eletrocardiograma e dosagem de enzimas cardíacas, permanecendo em observação clínica. Elizângela voltou a ser examinada pelo corpo clínico às 7h30, passando por terapia com oxigênio e medicação para controle da dor. Ela ficou em observação até as 15h30, quando recebeu alta.

A direção informou ainda que iniciou uma apuração para avaliar se houve algum desvio de conduta dos profissionais que a atenderam. A direção se solidarizou com a família e colegas de trabalho, se disponibilizando a esclarecer dúvidas sobre o atendimento à paciente.

Coren notificou enfermeiros
Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren-RJ) informou que fiscalizou, na tarde da quarta-feira (4), as unidades de saúde por onde passou a técnica de enfermagem Elizângela Medeiros para apurar se houve alguma irregularidade no âmbito da enfermagem. Segundo o órgão, “os enfermeiros responsáveis técnicos foram notificados e deverão responder ao Coren-RJ sobre os fatos ocorridos”. Um parecer deverá ser emitido pelo Conselho após a investigação.

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