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sábado, 15 de abril de 2017

SERRINHA DOS PINTOS/RN: A TRADIÇÃO DO JUDAS



Nasci na vizinha cidade de Martins, como a maioria dos serrinhenses de minha idade, mas cresci me criei e permaneço aqui. Não troco minha Serrinha por nenhuma outra cidade.

Recordo-me que, quando criança, nos últimos dias da Semana Santa sempre tinha um pessoal encarregado de produzir um judas (feito de roupas velhas com enchimento de palha de arroz ou de bananeira) e uma outra equipe se responsabilizava em “roubar” os animais as vésperas da “derrubada do judas”. Os “roubos” aconteciam sempre a noite. Jumentos e galinhas eram os preferidos dos “ladrões".

Ao raiar do Domingo de Páscoa muita gente que sentia falta de seus animais já sabiam onde poderiam encontra-los. Então se dirigiam ao local marcado para a “derrubada do Judas”.
Chegando lá várias pessoas já aguardavam ansiosas para ver a queda do judas, a leitura de seu testamento e também o resgate dos animais.
No momento do resgate cada dono levava junto uma sonora vaia do publico presente. Alguns ficavam envergonhados, outros esbravejavam, mas a maioria ria bastante.
O testamento era lido antes da queda do judas  (até porque se deixasse para ler depois corria o risco de ninguém mais escutar). Era a parte mais engraçada de todas. Era cada herança esquisita deixada pelo judas...
Após leitura do testamento os homens assumiam suas posições para a derruba do elemento que, por sua vez, aguardava pendurado pelo pescoço por uma corda presa a um galho de árvore. Os homens, armados de espingarda bate-bucha, atiravam incessantemente até que o boneco viesse abaixo, momento em que a turma toda partia pra cima e, numa ferocidade, estraçalhavam o pobre boneco. Cada um queria lavar seu "troféu" para casa. Alguém levava a cabeça, outro um braço, outro uma perna... O judas era totalmente esquartejado.
AH! Aquele tempo... Isso foi em mil novecentos e ... deixa pra lá. Tempo bom. Tempo em que as pessoas tinham senso de humor, sabiam brincar e se divertir sem a violência exacerbada como a que vivenciamos nos dias atuais.
Pois bem, daquele tempo pra cá a tradição do judas foi "morrendo" aos poucos e muitos anos se passaram sem a presença do boneco que representa aquele que traiu Jesus com um beijo no rosto.
Um belo dia, em abril de 2011, eis que surge uma galera vinda de Riacho da Cruz, liderada por um tal de Manoel da Macaca trazendo uma judas - Maria bonita. No ano seguinte ela casou-se e veio acompanhada de seu esposo Zé Godela. A turma pedia uma "esmola" para os judas. O povo ficou encantado com tais belas figuras. Por mais dois anos Manoel retornou à Serrinha com seus judas e, sem sabermos o motivo, eles não mais retornaram nem Manoel, nem os judas, nem sua galera.


 
Mas Manoel nem sabe que despertou em alguns jovens serrinhenses (e talvez de outras cidades) o desejo de "ressuscitar" o judas. 
Em 2015 surgiu, aqui em Serrinham o judas Dois Reais criado pela turma do Lava Jato Estrela.



No mesmo ano outro judas, criado por Felipe Miguel e Cia, marcou presença. 


Ano passado o judas ficou por conta de Deivid de Deassis. Esse ano (2017), o judas Dois Reais não veio, mas, em compensação, temos outros quatro: o judas de Geovane Miguel, o judas de Popó, o judas de Clênio e a judas de Toinho de Tetê.

Hoje não há mais "roubos". O judas não faz mais visitas domiciliares, não tem mais testamento nem espingardas; A confecção do judas continua bem parecida com a daquele época, porém, hoje eles montam "blitz". Quem passa "paga pedágio".  Pode ser R$ 1,00; R$ 2,00; R$ 5,00 ou mais. Cada um contribui conforme suas posses e vontade. É engraçado ver a animação do pessoal responsável por seu respectivo judas.
Quando chega o Domingo de Páscoa a turma escolhe um bar para beber e gastar o dinheiro arrecadado. O judas continua sendo esquartejado, afinal, ele representa o traidor. Contudo, seu interior não mais contém somente palha, ele é recheado muitos doces (balas, pirulitos, chiclete) para alegrar a criançada.

Embora não tenha o mesmo objetivo, sentimento ou finalidade, a tradição do judas está de volta e cresce a cada ano em Serrinha dos Pintos.

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